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BRASÍLIA NO CAMINHO CERTO
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A Participação Política dos Evangélicos

“Portanto, não se deve pôr em dúvida que o poder civil é uma vocação, não somente santa e legítima diante de Deus, mas também mui sacrossanta e honrosa entre todas as vocações” - João Calvino

INTRODUÇÃO: A Presença Política dos Evangélicos

O Censo de 2000 calcula em 35 milhões os evangélicos no Brasil, sendo dois terços ligados às denominações pentecostais. Provavelmente nesta próxima década haja um aumento de 30% em relação a 2000. O ritmo de crescimento é grande em todo o território nacional.

Assim, como segmento minoritário da população, até então desconsiderado pelos meios de comunicação, marginalizado ou ridicularizado por suas peculiaridades, entra na cena social, e se torna objeto dos mais diversos interesses, como é comum numa sociedade capitalista onde quem reina é o “mercado”.

Se até o período da Ditadura Militar o sentimento dominante no meio evangélico era o de que política é coisa suja, pecaminosa ou “do diabo”, hoje os preconceitos são superados, a vocação missionária política começa a ser incentivada, e a presença evangélica no cenário político nacional é sentida.

É importante salientar que o político evangélico não pode ser padronizado. A padronização de comportamento, além de ser uma atitude autoritária, nos conduziria a um paroquialismo mental intolerável que não se coaduna com o espírito cristão de lutar pela justiça respeitando a liberdade religiosa e a opinião dos outros. Ao contrário, no Brasil os evangélicos sempre lutaram pela liberdade religiosa e de expressão, por serem minoria e terem uma origem liberal. E, a bem da verdade, ainda que minoritariamente, neste século e meio de presença evangélica no Brasil, muitos políticos evangélicos contribuíram significativamente para o avanço da democracia participativa, procurando viver coerentemente sua fé cristã e seu compromisso com Deus em sua ética política e privada. Assim romperam com a esquizofrenia comparativa que identifica a justiça de Deus com os interesses de seu grupo religioso e se engajaram na luta pela transformação social, tomando como seus os dilemas do povo e os dramas da sociedade brasileira. Isso nos libera para participarmos de partidos políticos comprometidos com as lutas populares e nos leva a engajarmos na luta pela justiça e pelo bem comum, cuidando dos interesses da comunidade evangélica apenas naquilo que é direito de todos os cidadãos e das minorias.

O crescimento numérico e a importância dos evangélicos no Brasil e na América Latina são óbvios. Que nós merecemos ser condignamente representados não só nos Parlamentos, também não se discute. A diferença está em saber se consideramos nosso “peso político” como instrumento de barganha por privilégios ou como medida de nossa responsabilidade para com toda a sociedade diante de Deus.

Em suma, essa minoria, com vocação para ser maioria, não é mais silenciosa diante de uma realidade que nos desafia como agentes da história e não apenas como meros espectadores dela.

I - UMA REALIDADE DESAFIADORA

1. A Realidade Social e Econômica é Piramidal - Os 10% mais ricos, no topo da pirâmide, controlam 50 % da riqueza nacional, e os 50% mais pobres, na base da pirâmide, ficam com apenas 10%. O Brasil é o país com uma das piores distribuições de renda do mundo, e provavelmente, com mais alta taxa de iniquidade social de todo o planeta, embora seja, potencialmente, um dos países mais ricos. Eis, sucintamente, os nossos males: acumulação de riquezas nas mãos de poucos, mortalidade infantil, assassinatos de menores, baixa expectativa de vida, velhice desamparada, milhões sem moradia, educação e saúde sucateadas, salários aviltados, miséria, fome, desemprego, injustiça, impunidade, violência generalizada, crimes ecológicos, meios de comunicação massificante e cultos alienantes. E, com o triunfo do neoliberalismo, com o deus “mercado” regulamentando tudo, a tendência é aumentar o número dos excluídos do sistema. As Igrejas reproduzem essa realidade. Há Igrejas ricas e há Igrejas pobres, e quase nenhuma solidariedade entre elas.

2. A Realidade Política é um Espelho - Reflete a realidade social e econômica. Historicamente o Brasil tem sido governado por uma elite egoísta e irresponsável. Saímos, porém, de uma ditadura militar, enfrentamos o impeachment de um Presidente da República, e vivemos numa democracia. A participação política dos evangélicos se faz sentir no Congresso Nacional onde temos quase 40 deputados e senadores, dezenas de deputados nas Assembléias Estaduais, e 5 na Câmara Legislativa do Distrito Federal, além de inúmeros prefeitos e vereadores nos municípios. Há uma tendência claramente verificada entre os políticos evangélicos: eles preferem apoiar o governo. Mas a presença evangélica se faz sentir também nos partidos de oposição.

3. A Realidade Religiosa é Ampla - Vive-se no Brasil plena liberdade de culto, mas o fenômeno religioso que é motivado de estudos de cientistas sociais, é, sem dúvida, o crescimento evangélico. Embora a cultura religiosa do Brasil seja católica, a Igreja Católica, por ser uma Igreja clerical, perdeu significativamente a capacidade de dialogar com o povo. Quem dialoga são as Igrejas Evangélicas, especialmente as pentecostais. No guarda-chuva “Evangélico” abriga-se uma grande diversidade de Igrejas. Politicamente os evangélicos, por razões de formação histórica e ideológica, são conservadores. Mas eles estão presentes em todas as áreas da sociedade, inclusive, em todos os partidos políticos.

II. MISSÃO POLÍTICA: DESAFIOS ÀS IGREJAS

As Igrejas locais e as denominações são o terreno onde nascem a vocação política. Se isso é verdade nos Estados Unidos, especialmente nas igrejas dos negros, na África, e noutros países do mundo, também o é no Brasil e nos demais países latino-americanos. Reconhecer, como Calvino, que a vocação política é tão digna quanto as outras, inclusive as clericais, é fundamental. Há ainda muitos preconceitos em muitas igrejas para encará-la como tal. A Igreja, através de sua história, tende a reproduzir a sociedade. No Brasil, e, creio, noutros países latino-americanos, na tentativa de assédio ao poder político, sem o necessário preparo, sofremos grandes golpes. Políticos evangélicos se envolveram na corrupção. Eis sete propostas/desafios para que as Igrejas sejam terrenos férteis na produção de bons políticos:

1. O desenvolvimento de uma espiritualidade integral que alcance todas as áreas da vida. A fé cristã afeta todas as áreas da vida. Ela não departamentaliza a vida entre o que é sagrado e o que é profano. Tudo sobe ao nível do sagrado. Não se preocupa apenas com o céu, mas principalmente com a terra. A sua oração central é o PAI NOSSO, que une as coisas de Deus (o seu santo nome, o seu reino, a sua vontade, a sua glória) com as coisas do homem (o pão, o perdão das dívidas, os relacionamentos, a fraqueza diante do mal). Além do mais a fé cristã é essencialmente ética, tão ética que para ela os meios determinam o fim. Assim nos demonstrou o Senhor Jesus que, buscando o fim da redenção do ser humano, escolheu o meio do amor que se põe a serviço, recusando as tentações demoníacas do caminho do poder que oprime, da violência e da manipulação das massas através de milagres (Mt 4.1-11; Lc 4.1-13). Portanto, o roubo, a mentira e a esperteza não se justificam sob o pretexto de se promover a Causa Santa. Deus é santo e exige santidade do seu povo. Baal/Satanás é que é o deus da permissividade.

2. Buscar o equilíbrio tri-dimensional: verticalidade, horizontalidade e profundidade. Paul Tillich, teólogo católico dos mais conceituados, criticando os movimentos religiosos de massa nos Estados Unidos, disse que a dimensão de profundidade é a dimensão perdida da religião. E eu diria que a vida da Igreja é trinitária porque é a ação da Trindade Santa dentro dela: a verticalidade do Pai, a horizontalidade do Filho e a profundidade do Espírito Santo. Se só a verticalidade é incentivada, cairíamos num pientismo alienante (ascetismo intra-mundo). Só a horizontalidade, cairíamos na tentação do Evangelho Social (ativismo humano). E se só profundidade, cairíamos num intimismo estéril (misticismo). Daí a necessidade do equilíbrio tri-dimensional para que a saúde de Deus invada nossa vida em todas as áreas de nossa atuação, especialmente na política. Não basta apenas a quantidade. É preciso qualidade.

3. A construção de uma prática política baseada no serviço desinteressado. Mateus 20.20-28 e Mc 10.35-45 são uma página do Evangelho que não pode ser esquecida pelas Igrejas. Daí a repetição, não apenas nos dois textos acima, mas noutros textos nos Evangelhos. Jesus Cristo coloca para os seus seguidores uma proposta revolucionária e humana: o poder para servir, e não para se servir. O “mas entre vós não é assim” de Jesus continua desafiador para a vida interna das Igrejas, para a política das denominações. Encarnar este ensinamento é fundamental na formação do caráter cristão, na formação de comunidades cristãs saudáveis e no surgimento de vocações para o serviço da sociedade. A Igreja é uma maquete do Reino de Deus para o mundo. Portanto, nada de autoritarismo, mas carismatismo democrático como nos receita o Novo Testamento. A democratização das Igrejas é um imperativo do Evangelho para que o governo de Cristo seja exercido em todos, através de todos, espera o bem de todos (Efésios 4). Na vida pública, o político não passa de um servo do povo.

4. O desenvolvimento de uma práxis bíblico-teológica para a missão política. É imperativo que para cada ação concreta da Igreja e do cristão, haja uma base bíblico-teológica consistente, porque o nosso desafio é agir como Deus age. Na prática da ação política isso é fundamental. Paul Freston, em palestra numa reunião do Movimento Evangélico Progressista do Brasil, apresentou três elementos importantes: 1) “Uma teologia do envolvimento desinteressado (não apenas uma teologia do envolvimento político), isto é, em termos teológico/protestante, baseada na doutrina da criação e do mandato natural; 2) a teologia da prioridade da justiça social; e, 3) a teologia do Reino de Deus”. Eu acrescento mais um elemento: Uma teologia urbana que recupere a importância da grande cidade, mas, principalmente, o significado espiritual dos seus sistemas político, econômico e religioso. 5. A recuperação da voz profética. “Sem profecia o povo se corrompe”. Esta verdade bíblica é válida para a Igreja, para a sociedade e para o mundo. A confrontação da Palavra de Deus com o pecado humano gera saúde para o tecido social. Martin Luther King escreveu, em memorável carta, que “se a Igreja de hoje não recuperar o espírito sacrificial da Igreja Primitiva, renunciará a lealdade de milhões que a deixarão de lado como um irrelevante clube social sem significado para o nosso século”. A denúncia profética dos pecados sociais, e não apenas dos indivíduos, é necessária numa realidade de iniquidade social que clama aos céus.

6. A promoção do debate político. A política deve ser assunto do púlpito, da formação dos pastores e líderes, de debates em organizações das Igrejas. Movimentos de ação política devem ser incentivados como o Movimento Evangélico Progressista, no Brasil, para discutirem a conjuntura, e traçarem estratégias de ação. No Brasil, antes do golpe militar de 64, houve uma fermentação do debate político em todos os segmentos da vida nacional, e alcançou as Igrejas.

7. O incentivo e o apoio à vocação política. Aqueles que têm um mandato popular, assim como os que pretendem ter, devem ser alvos das orações das Igrejas, e de um cuidado pastoral especial. O embate político é duro, o bem e o mal se chocam e são poucos os que saem ilesos e íntegros desta batalha.

III - O PERFIL DE UM POLÍTICO EVANGÉLICO

O notável crescimento evangélico na América Latina tem provocado um fascínio pelo poder político. Prova disso é o número excessivo de candidatos evangélicos nas eleições - alguns sem o devido preparo ou vocação política. Qual seria o perfil de um político evangélico? Seguem algumas sugestões:

1. Prioridade absoluta do Reino de Deus na busca dos seus ideais de justiça, paz, alegria e liberdade, tanto na vida pessoal como na sociedade.

2. Firme identidade cristã-evangélica. Em outras palavras, que seja um bom crente, firme na fé, com bom testemunho na sociedade, e devidamente integrado e experimentado na sua Igreja.

3. Integridade pessoal. Isso é fundamental para não ser corrompido no processo político.

4. Prudência e simplicidade, seguindo literalmente a recomendação do Senhor Jesus: “Sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas”. Não deve ser ingênuo com relação à natureza do mal na política. Tem que ser astuto para não cair nas astutas ciladas do diabo, e, ao mesmo tempo, integro/inteiro em seus propósitos.

5. Ter uma filosofia de serviço como nos ensinou Jesus. Jamais deve buscar o poder para se servir, mas para servir ao povo que representa, e não apenas ao povo evangélico.

6. Compromisso social com os mais pobres e desfavorecidos e com as causas justas da sociedade. O político evangélico não pode estar a serviço das elites e dos poderosos.

7. Compromisso partidário a fim de que não seja jogado convenientemente de um partido para outro. Deve, no entanto, relativizar o seu partido político para que não caia no paroquialismo ideológico e político, já que absoluto é só Deus e o seu Reino.

IV. A PRÁTICA DA AÇÃO POLÍTICA

1. A ação política é conflitiva - O político vive no dia-a-dia as pressões da sociedade e conflitos de múltiplos interesses políticos. Tem de tomar decisões rápidas sobre os mais diversos problemas. Vive em meio a uma constante guerra espiritual entre o bem e o mal, mas o maniqueísmo mental não funciona. Às vezes se é obrigado a optar pelo mal menor na elaboração de uma lei, até mesmo, na tomada de uma decisão. Vale a pena se desenvolver praticamente a doutrina paulina dos “principados e potestades” contra os quais temos de lutar. Nesse embate a Armadura de Deus é imprescindível (Ef 6.10-19).

2. A prática política exige participação. O isolamento político é um suicídio. Não se deixar queimar é fundamental para não se perder a credibilidade e os espaços. A astúcia das serpentes é importante para tanto. Isso é prático também para as Igrejas que não devem se enclausurar num monasticismo intra-mundo, mas devem participar na elaboração das políticas públicas, nas campanhas públicas em benefício do bem comum. No Distrito Federal há um projeto de governo que considero revolucionário: o orçamento participativo que requer a participação da sociedade na sua elaboração e na sua execução.

3. Cobeligerância. O político evangélico deve ter uma firme opção partidária. Porém a fidelidade partidária não deve conduzi-lo ao paroquialismo nem a fazer inimigos. Às vezes, para o bem comum, pode-se aliar ao adversário quando há acordo na ação política. Também é verdade, como dizia o ex-presidente Tancredo Neves, que “os adversários de hoje podem ser aliados de amanhã”. Sobre cobeligerância, Francis Shaeffer, em seu “Manifesto Cristão”, escreveu uma página linda. É importante a verdade paulina de que “a nossa luta não é contra carne e sangue”.

CONCLUSÃO: Uma filosofia política

Na busca de uma filosofia cristã para a prática da ação política, as palavras de Jesus Cristo são decisivas: “Sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas” (Mt 10.16). Encarnar este ensinamento é fundamental, especialmente a um político, porque a política é um processo dinâmico em que diariamente se tem de tomar decisões rápidas diante das mais imprevisíveis situações. O contexto bíblico destas palavras de Jesus é o envio de seus discípulos para uma missão louca: “Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos”. Cultivar, pois a prudência/astúcia das serpentes e a simplicidade das pombas são essenciais. Prudência (phronimos = cautela, bom senso, sagacidade, astúcia). Simplicidade (akeraios = sinceridade, pureza, sem mistura, sem malícia, integridade). Administrar a prudência e simplicidade não é fácil, mas desafiador.

Prudentes como as serpentes para discernir o bem e o mal; e simples como as pombas para ser transparentes e sinceros. Prudentes para evitar conflitos desnecessários; e simples para não fugir dos conflitos inevitáveis. Prudentes para não se prender a atitudes mentais fechadas; e simples para se abrir inteiramente a causas justas. Prudentes para não se corromper com o mal; e simples para se comprometer com o bem. Prudentes para não se deixar queimar; e simples para não se desanimar. Prudentes/astutos como as serpentes para não exagerar; e simples para se apaixonar. Prudentes nas negociações; e simples para falar sem duplicidade. Prudentes sem serem maldosos; e simples sem serem ingênuos. Prudentes para ceder no que não é fundamental; e simples para não ceder no essencial. Prudentes para não se deixar dominar; e simples para não dominar os outros. Prudentes para não ficar do lado dos poderosos; e simples para abraçar a causa do pobre e do oprimido. Prudentes para reconhecer que nem sempre a voz do povo é a voz de Deus; e simples para abraçar como criança os ideais do Reino. Em suma, prudentes como as serpentes para errar menos; e simples como as pombas para corrigir os erros.

Meu desejo, como político evangélico, é que esta reflexão, feita com a ajuda de companheiros que me apoiam em Brasília, enriquecida com a experiência de outros colegas, contribua para o debate e uma maior conscientização sobre a participação política dos evangélicos.

ELIEL MENDES

Brasília-DF., 11/11/97-Goiânia-GO

Brasília-DF., 28 e 29/03/98-Picos-PI



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